Episiotomia: tudo o que precisas saber!

Episiotomia é um corte feito aquando do período expulsivo para, supostamente, facilitar a saída do bebé.


Historicamente, esta prática foi introduzida no séc. XVIII por Sir Fielding Ould, obstetra irlandês, para ajudar em partos difíceis. Mas só mais tarde, no séc. XX é que a episiotomia passou a ser usada em larga escala, sobretudo quando o parto deixou de ser domiciliário e foi transferido para o hospital.

Enquanto os partos eram assistidos do domicílio o nascimento era visto como algo natural e fisiológico. Com a passagem para o hospital, o parto passou a ser visto como algo patológico requerendo sempre intervenções obstétricas para prevenir complicações.

E foi assim que a Episiotomia passou a ser feita de forma generalizada e rotineira nos partos vaginais, até aos dias de hoje!


Só nos anos 70 é que apareceram os primeiros estudos clínicos que punham em causa o uso rotineiro da Episiotomia.


Atualmente em Portugal, a taxa de Episiotomia é preocupante: situa-se acima dos 70%, contrariando aquelas que são as recomendações de não ultrapassar os 10%. A recomendação atual da Organização Mundial de Saúde não é de proibir a episiotomia, mas de restringir o seu uso, admitindo-se que em alguns casos ela pode ser necessária. Segundo a 2018 WHO recommendations – Intrapartum care for a positive childbirt experience, “o uso rotineiro e liberado da episiotomia não está recomendado”.


Mas não é melhor cortar do que rasgar?!


Ora repara… As lacerações (rasgos) do períneo podem-se classificar em 4 graus consoante a profundidade dos tecidos que envolve:

  • Uma laceração de 1º grau envolve apenas pele e tecido subcutâneo. Uma laceração de 3º e 4º grau envolvem ânus e reto. São muito raras.
  • Lacerações de 1º grau são normais num parto vaginal e, muitas vezes, nem têm necessidade de sutura.
  • Uma episiotomia equivale sempre a uma laceração de 2º grau, ou seja, envolve sempre músculo, vasos sanguíneos e nervos.


Uma episiotomia, para além de não proteger o períneo, aumenta o risco de uma laceração grave (3º e 4º grau) pois “abre caminho” a que rasgue ainda mais.


Apesar de, atualmente, se admitir que a episiotomia seja feita numa única situação – bebé em sofrimento que precisa de nascer rapidamente – há profissionais que assistem o parto que consideram que ela NUNCA deva ser realizada.


Desde 2001 que a Médica Obstetra Melania Amorim, ativista pelo períneo íntegro, leva a cabo um protocolo de NÃO EPISIOTOMIA. Em 2015 apresentou os resultados de 14 anos sem fazer este procedimento. Queres saber quais foram?

  • 60% das mulheres que tiveram partos vaginais tiveram PERÍNEO INTEGRO (sem qualquer laceração);
  • As restantes 40% tiveram apenas laceração de 1º grau, ou seja, que só envolve pele e tecido subcutâneo;
  • Só 23% das mulheres que laceraram (1º grau) é que precisou de ser suturada.

Segundo Leila Katz e Melania Amorim, “Além de não proteger o períneo, a episiotomia aumenta a frequência de dor perineal, dor nas relações sexuais, perda sanguínea, laceração do ânus, lesão retal e incontinência anal, sem reduzir as taxas de incontinência urinária ou melhorar os resultados neonatais”.

 

Sofia Rocha – Enfermeira | CAM | Doula

Amamenta Viana do Castelo

Referências:

»» 2018 WHO Recommendations – Intrapartum care for a positive childbirt experience;
»» Estudando episiotomia… – Blog Estuda, Melania, estuda;
»» Livro Nascer Saudável, de Sandra Oliveira.
»» The role of episiotomy in modern obstetrics, de Melania Amorim.

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