Garante um bom começo na amamentação: o contacto pele-com-pele!

 

O parto e as intervenções do parto têm ou podem ter grandes implicações na amamentação. De facto, é impossível dissociar uma coisa da outra. Quanto mais fisiológico (ou menos intervencionado) for o nascimento, em melhores condições se encontrará o teu bebé para iniciar aquilo que está geneticamente preparado para fazer: procurar a mama e começar a mamar.

Mal nasce, a primeira necessidade básica do bebé não é a amamentação mas sim o contacto pele-com pele! A amamentação acontecerá, naturalmente, na sequência deste contacto. Se só puderes mudar uma coisa no nascimento do teu bebé, muda isto: Contacto pele-com-pele imediato após nascer!

Segundo Nils Bergman, médico sueco que tem feito um trabalho incrível em promover práticas mais saudáveis junto dos bebés, “O recém-nascido só é 100% competente no corpo da mãe”. Ou seja, é preciso que o bebé se encontre no seu habitat natural – a pele da mãe – para que consiga expressar os comportamentos de que é capaz.

Então, logo após nascer (e ainda com o cordão umbilical por cortar) o bebé deve ser colocado em cima da barriga da mãe, depois seco e tapados com uma manta.

Rotinas hospitalares como vestir, pesar, medir, etc. devem esperar. Avaliações e observações do bebé/mãe podem ser feitas com os dois em contacto pele-com-pele. Na verdade, existem poucas indicações médicas reais para que um bebé não possa ser colocado pele-com-pele logo após nascer. Mas se for esse o caso, deve ser iniciado logo que possível.

 

Mas então, o que pode o contacto pele-com-pele fazer por ti e pelo teu bebé?

Regulação e estabilização da temperatura corporal do bebé – o corpo nu da mãe é a melhor forma de aquecer um bebé que nasce (molhado e com frio) com a capacidade cerebral de regulação da temperatura ainda imatura;
Função cardiorrespiratória mais estável – regra geral, um bebé aquecido é um bebé confortável e sem esforço;
Melhores níveis de glicemia (açúcar do sangue) do bebé – mesmo antes dele ter começado a mamar! Quando o bebé se encontra quente, confortável e estável, o organismo dele não necessita de despender energia (e glicose – o açúcar do sangue) para aquecê-lo e estabilizá-lo;
Promove padrões de sucção normais – estar em contacto com a pele da mãe estimula os reflexos e instintos naturais para procurar a mama, abocanhar e iniciar a sucção de forma, geralmente, perfeita;
Mais episódios de amamentação – o cheiro, o calor e o toque da pele da mãe vão estimular o bebé a mamar mais vezes;
Colonização do bebé pelas mesmas bactérias que compõe o microbioma materno (protetoras) em vez de bactérias hospitalares;
Recuperação mais rápida (da mãe e bebé) dos níveis de hormonas de stress – adrenalina, cortisol, etc. -presentes durante o parto;
Estimula a produção de leite materno – quanto mais frequentemente mamar o bebé nas primeiras horas/dias de vida, mais células produtoras de leite se vão produzir e mais alta se irá calibrar a produção de leite;
Maior conexão da mãe com as necessidades do bebé – resposta mais rápida da mãe aos sinais de que o bebé quer mamar;
Maior satisfação da mãe;
• Etc.

 

Breast crawl, ou o rastejar até à mama.

Todos os bebés, quando colocados nus sobre a barriga da mãe logo após o nascimento, assim que se encontrem estáveis e confortáveis, têm a capacidade de procurar a mama, arrastando-se e começando a mamar numa posição normalmente perfeita. A isto se chama Breast Crawl.

Os mamíferos, mal nascem, comportam-se de forma semelhante e padronizada, segundo a sua espécie. O bebé humano não é diferente. Quando em contacto pele-com-pele, o bebé passa por nove fases distintas (inatas e instintivas), que acontecem numa ordem específica e que culminam com a sucção na mama. Lê mais sobre isto aqui.

O recém-nascido necessita de cerca de uma hora para chegar à mama e começar a mamar.

Daí o termo “Hora Dourada”. Bebés que nasceram de partos fisiológicos poderão demorar menos tempo, mas outros, especialmente se passaram por partos demorados ou muito intervencionados, poderão precisar de mais tempo.

Para que o bebé seja bem sucedido nesta primeira experiência de mamar é fundamental que mãe e bebé não sejam perturbados. Em nada. Ao interromper o bebé para realizar algum procedimento (pesar, vestir…) ou o “simples” ato de pegar nele e coloca-lo diretamente na mama, não permitindo que complete esta sequência com a sucção na mama, vai levar a que depois, ao abocanhar a mama, já não o faça num estado calmo e sereno. A forma como agarra na mama (e coloca a língua) poderá já não ser a perfeita.

Nada precisa de ser ensinado ao bebé nem a mãe. A mãe só precisa de confiar nesta competência natural do bebé e apoiar os seus esforços. O bebé faz tudo!

Mas será que uma hora de contacto pele-com-pele após o nascimento satisfaz as necessidades do bebé? Mas quanto tempo, então, precisa o bebé de se manter neste contacto após o nascimento? Nils Bergman põe em causa se a separação sequer deve acontecer. Segundo ele, “De um ponto de vista neurológico, a separação não devia acontecer, de todo. É a nossa cultura Ocidental e as práticas hospitalares padronizadas, não suportadas por qualquer evidência científica, que assumem que a separação é necessária e normal.”

Mesmo no caso de cesarianas, se mãe e bebé se encontrarem clinicamente bem, o contacto pele-com-pele também pode e deve ser feito. Caso a mãe não se encontre em condições para tal, pode ser praticado pelo pai. Segundo este estudo, o contacto pele-com-pele com o pai permite que o bebé atinja um estado mais calmo e facilitador da amamentação.

Como minimizar, então, os problemas na amamentação e garantir um bom começo? Primeiro, e sempre que possível, respeitar o processo natural e fisiológico que é o parto, limitando as intervenções às estritamente necessárias. Depois, contacto pele-com-pele sem interrupções logo após o nascimento e durante as primeiras semanas de vida!

Sofia Rocha – Enfermeira/CAM/Doula – Responsável pela Amamenta Viana do Castelo

 

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